Oi!!!
Nos próximos dias, vão se completar 50 anos de um dos maiores mistérios que o Rio de Janeiro conheceu durante todo o século XX: o Caso Carlinhos. Então, decidi fazer um post falando sobre isso.
Pra quem não sabe do que se trata, “Caso Carlinhos” foi como ficou conhecido o desaparecimento de um menino de 10 anos chamado Carlos Ramires da Costa, apelidado de Carlinhos, ocorrido em 1973.
Embora, a princípio, a coisa tenha parecido um sequestro, as pistas encontradas depois foram indicando que não era bem isso. E o menino foi visto e ouvido pela última vez exatamente no momento do suposto sequestro: ele nunca telefonou pra ninguém pedindo socorro nem nada parecido e também nunca mais foi visto vivo nem morto.
Antes de explicar melhor a história, acho melhor explicar como é o lugar onde a coisa aconteceu. De outro modo, fica meio difícil entender pra quem não conhece a cidade.
O Morro de São Judas Tadeu é uma colina relativamente florestal que separa os bairros de Laranjeiras e Santa Teresa, no Rio de Janeiro. E do lado sul desse morro fica a Rua Alice, que começa na Rua das Laranjeiras lá embaixo e sobe o morro até chegar ao Túnel do Rio Comprido (por isso mesmo, apelidado pelos moradores da região de “Túnel da Rua Alice”), no alto do morro.
Então, essa rua é uma ladeira cheia de curvas. E embora não faltem dezenas e dezenas de casas lá, a Rua Alice ainda hoje é cheia de terrenos baldios ocupados por matagais, ligados ao arvoredo do morro.
Bom, no início dos anos 70, numa casa que ficava na parte de cima do morro, a algumas dezenas de metros do túnel, morava uma família composta pelo pai João Costa, a mãe Maria Ramires e os 7 filhos deles (4 meninos chamados Carlos, Eduardo, João e Roberto e 3 meninas chamadas Carmen, Luciana e Vera).
Na noite chuvosa e fria de 02 de Agosto de 1973, o João, que produzia material farmacêutico num laboratório, saiu dizendo que ia fazer uma entrega, acompanhado das 2 crianças menores, ou seja, o Roberto e a Luciana (que tinham na época 8 e 3 anos) e de um funcionário do laboratório chamado Abel Silva.
A Maria ficou na casa vendo televisão com os 5 filhos mais velhos e os 3 cachorros da família.
De repente, as luzes se apagaram, o que fez todos estranharem a situação, pois dava pra ver que havia luz na rua e nas casas vizinhas.
Logo depois, um homem estranho apareceu dentro da casa, dizendo que queria a criança mais nova, enquanto os cachorros não manifestavam nem a mais leve reação.
Depois disso, demonstrando conhecer bem a localização dos cômodos da casa, o homem direcionou a Maria e os 4 filhos mais velhos pro banheiro, deixando claro que ia levar o Carlinhos, ou seja, a criança mais nova que tava ali na hora.
Enquanto o menino chorava, a Maria, sem se alterar, disse a ele pra ficar calmo e ir com o homem. E foi trancada no banheiro junto com os outros filhos, enquanto o homem misterioso deixava esse bilhete com eles:
Uma coisa que chama a atenção aí: por que o local da entrega do dinheiro era tão perto da casa da família?
Bom, quase imediatamente depois, o João, os 2 filhos menores dele e o Abel chegaram de carro. E o Abel, entrando primeiro na casa, ouviu os filhos da família gritando lá dentro do banheiro (a mãe se mantinha em silêncio e sem demonstrar nenhum espanto com a situação) e destrancou a porta, permitindo que eles saíssem.
Quando o Abel e o João foram informados do que tinha acontecido ali, correram pra rua e viram um homem que, aparentemente ao perceber que estavam olhando pra ele, pulou um muro e se perdeu de vista num dos matagais da rua.
O João entrou no matagal gritando pelo Carlinhos (embora não dê pra afirmar que o tal homem tinha o que quer que fosse a ver com essa história, não daria pra pensar outra coisa na hora, né?) enquanto o Abel desceu de carro pra Rua das Laranjeiras pra chamar a polícia. Mas os policiais que ele encontrou ali perto responderam que “criança sumida em matagal” não era assunto da polícia, e sim dos bombeiros. E aconselharam ele a ligar pros bombeiros, que realmente mandaram um carro até lá não muito tempo depois.
Claro que essa barulheira toda atraiu os vizinhos das casas próximas, que saíram pra rua pra ver o que se passava. E foi aí que alguém não muito bem identificado ligou pra imprensa, fazendo com que a situação fosse superficialmente noticiada num telejornal que passava na Globo na época.
É claro que isso atraiu vários jornalistas pra Rua Alice na mesma hora.
O 1º repórter que chegou foi o Celso de Martin Serqueira, que foi entrevistar diretamente a Maria e os filhos mais velhos.
Ele perguntou se o sequestrador tava disfarçado ou armado. E todos concordaram que ele tava de cara limpa e sem nenhuma arma. E a única característica física que deu pra ver com detalhes na hora é que ele usava cabelo black power, indicando que ele era negro.
Aliás, uma das maiores esquisitices dessa história: nunca foi feito um retrato falado do sequestrador! Só ficou essa vaga informação de que era um homem de cabelo black power.
Bom, pouco mais de 1 hora depois que o Celso tinha chegado, ele viu um colega chamado Gilson da Silva Rebello, que trabalhava pro mesmo jornal, chegando ali pra substituir ele, já que ele tinha mais experiência em reportagens sobre crimes do que o Celso.
Esse último também não demonstrou grande interesse no caso, entregou o comando ao Gilson e foi embora (inclusive, até hoje muita gente pensa que o Gilson foi o primeiríssimo repórter a chega lá).
Mas tanto o Celso quanto o Gilson estranharam bastante o comportamento da Maria: agora que a luz tinha voltado, ela estava sentada no sofá tranquilamente e vendo televisão enquanto as pessoas entravam na casa... Reação meio estranha pruma mãe que tinha acabado de ver o filho de 10 anos ser levado de casa à força por um homem desconhecido de noite, né? Ainda mais levando em conta que ela não escondia de ninguém que aquele era o filho preferido dela. Será que ela não ia minimamente gritar pedindo socorro na hora em que o menino foi levado?
E conforme iam chegando mais repórteres, ela parecia se empolgar com a situação, sorrindo e acenando pras câmeras.
Enquanto isso, na rua, o João se comportava com desespero explícito, como se já tivesse certeza que alguma desgraça tinha acontecido.
Dava pra ver que ninguém ali parecia se preocupar muito em cuidar da casa, de aparência suja e desgastada, contrastando com as outras casas bem cuidadas daquele lado da rua.
Obviamente, a família estava bem longe de viver no luxo. E menos ainda tinha gente famosa morando na casa.
Fazer um sequestro numa família que não era rica nem famosa não parece fazer muito sentido...
Os vizinhos e professoras do Carlinhos que seriam indagados no futuro também deixariam claro que o comportamento dele não destacava ele em nada em relação às outras crianças da mesma idade e que moravam no mesmo bairro. Ele só chamava a atenção pela beleza, já que era muito mais bonito do que a maioria das outras pessoas da família dele.
Outra coisa que o Gilson estranhou bastante quando entrou na casa é que, na parede da sala, existiam 2 pôsteres de fotos em preto e branco: um deles mostrava os 7 irmãos juntos uns do lado dos outros e o outro mostrava o Carlinhos sozinho.
Bom, nos anos 70 era uma espécie de moda fazer esses pôsteres em preto e branco com crianças da família e enfeitar as paredes da casa com eles. O que é estranho nessa situação é o pôster do Carlinhos sozinho... Por que esse destaque especificamente pra ele? Afinal, ele não era o mais velho nem o mais novo dos 7.
Aí o Gilson começou a pensar que aquilo parecia ser algo montado pra chamar a atenção das pessoas pro Carlinhos...
Outra coisa estranha: pouco depois disso, o Abel disse ao Gilson que, quando ele tinha chegado de carro junto com o João, eles tinham visto o sequestrador entrando num taxi vermelho junto com o Carlinhos e fugindo dali no tal taxi... Mas absolutamente nenhuma outra pessoa presente ali na hora mencionou nenhum tipo de carro vermelho na rua e nem disse que o sequestrador entrou num carro com o menino.
A Maria foi intimada a ir à delegacia no dia seguinte prestar depoimento. E ali ela mudou bastante a história: ela disse que o sequestrador invadiu a casa armado e com um pano enrolado em volta da cabeça e ela omitiu completamente a parte de ficar trancada no banheiro junto com os outros filhos, alegando que ela e os filhos seguiram o sequestrador assim que ele saiu pela rua arrastando o Carlinhos, subindo a rua na direção do túnel.
Ela também disse que, enquanto o sequestrador ainda se encontrava na casa, ele deixou aquele bilhete com a família. E que, quando ela e os outros filhos chegaram na porta da rua, o carro do João chegou segundos depois e que todos ali ainda viram o sequestrador arrastando o Carlinhos pela rua, pulando um muro e puxando o menino junto com ele.
Por fim, ela disse que entregou o bilhete do sequestrador ao João, mas que ele não leu e que ele só começou a seguir o sequestrador depois que o cara já tinha pulado o muro junto com o Carlinhos e se perdido de vista.
É claro que a forma mais funcional de encontrar alguma pista do sequestrador seria analisar o bilhete, pois provavelmente haveria impressões digitais ali. Só que umas 50 pessoas seguraram no bilhete pra ler nos minutos de confusão que se seguiram à chegada dos bombeiros.
A propósito, o bilhete foi fotografado e a foto foi publicada nos jornais no dia seguinte! Ou seja: o país inteiro ficou sabendo da hora e do local do pagamento do resgate!
Bom, como vimos, o bilhete exigia que o dinheiro do resgate fosse deixado perto dali, 2 dias depois, às 2h da manhã. E na data e hora exigidas, simplesmente o lugar ficou cheio de repórteres (alguns até transmitindo ao vivo pras suas estações de rádio!) e curiosos esperando pra ver o que ia acontecer!
Fica difícil entender o que estavam pretendendo com isso, né? Será que alguém ali queria entrevistar o sequestrador e perguntar quando ele pretendia devolver o Carlinhos?rsrs
O delegado Osmar Peçanha, que permitiu essa situação, virou motivo de deboche entre os policiais sérios nos anos seguintes.
E é óbvio que qualquer pessoa que pretendesse ir ali pra pegar o tal dinheiro, se é que essa pessoa chegou a se aproximar de tal muvuca, não se mostrou em momento nenhum.
O sequestrador nunca mais entrou em contato depois disso?
Bom, a família não tinha telefone em casa, mas eles pediram a um jornal que publicasse o número de telefone de um dos vizinhos, caso alguém tivesse alguma informação que pudesse dar...
Não sei se a gente deveria chamar isso de inocência ou de ignorância. Mas o fato é que eles receberam ali incontáveis trotes (vamos lembrar que os telefones daquela época não tinham bina). E algumas vezes quem ligava dizia que era o sequestrador e até marcava novos lugares pra deixar o dinheiro do resgate (o caso mais famoso foi alguém que disse que devolveria o Carlinhos no Maracanã, se o dinheiro do resgate fosse deixado ali, mas é claro que ninguém apareceu na data combinada).
Mas a gente pode afirmar com 99,9% de certeza que isso eram só trotes, e não o verdadeiro sequestrador.
Ainda no dia seguinte ao sequestro, a Vera alegou que tinha reconhecido o sequestrador, dizendo que era um empregado de uma clínica que funcionava num pequeno prédio, vizinho de muro da casa da família, chamado Kléber Ramos.
O cara chegou a ser preso, mas testemunhas que tavam com ele no momento do sequestro confirmaram que ele tava bem longe dali naquela hora, possibilitando que a polícia soltasse ele.
Bom, toda essa situação chocou muito a sociedade da época: uma criança que se encontrava dentro de casa e na presença da família foi sequestrada! Isso passava uma ideia de insegurança total pra população. Afinal, qual seria a situação mais segura do que essa em que uma criança se encontraria?
Nos dias seguintes que se seguiram à muvuca que não deu em nada, vários repórteres se instalaram 24 horas por dia em frente à casa da família na Rua Alice, aguardando qualquer novidade que acontecesse ali pra noticiar nos jornais.
Uma coisa que chamou a atenção de muitos deles: de madrugada, a Maria costumava aparecer na janela que dava de frente pra rua cantando, como se ela tivesse apresentando um show musical pros repórteres!
Muitos ali começaram a se perguntar se ela tinha algum problema mental. E até concluíram que não valia a pena perguntar mais nada a ela.
A direção do Jornal O Globo contratou um detetive particular chamado Bechara Jalkh pra investigar o caso...
De qualquer forma, os comportamentos tanto do João quanto da Maria começaram a levantar suspeitas: o pânico exagerado do pai parecia demonstrar que ele tinha certeza que algo ruim e inevitável já tinha acontecido; a calma exagerada da mãe parecia demonstrar que ela sabia que o menino se encontrava em segurança...
Assim, ambos passaram a ser mais observados.
O bilhete que foi deixado pelo sequestrador foi analisado. E concluíram que os erros de concordância e a grafia que existiam ali foram escritos propositalmente pra parecer erros. Ou seja: uma pessoa instruída escreveu aquilo e tentou dar uma disfarçada pra fazer parecer que tinha sido um semianalfabeto que tinha feito aquilo.
Não demorou muito pra que descobrissem que o João vivia de aplicar pequenos golpes pra ganhar pequenas quantias aqui e ali. E mesmo assim, vivia cheio de dívidas, que foram aumentando muito nos meses anteriores ao desaparecimento do Carlinhos.
Logo surgiu a suposição de que ele teve a ideia de simular o sequestro de um dos filhos pra provocar uma comoção nas redondezas, entre os vizinhos que conheciam a criança (o fato do sequestrador ter marcado o local da entrega do dinheiro ali nas proximidades mesmo, pra que alguns moradores das redondezas vissem a situação com mais clareza, parece dar força a essa teoria). E assim, ele mandaria algum amigo ficar com a criança em casa, pediria dinheiro entre os vizinhos mais próximos pra pagar o suposto resgate, usaria isso pra pagar as dívidas dele e depois iria buscar a criança, dizendo que ela tinha sido devolvida pelo sequestrador mediante o pagamento do resgate.
O pôster em destaque na parede da sala seria pra que, quando os vizinhos entrassem pra prestar solidariedade à família, vissem com detalhes que aquela era a criança sequestrada.
O fato do sequestrador ter entrado na casa exigindo que entregassem a ele a criança mais nova já faz pensar que o alvo do sequestro era a Luciana. Afinal, se o plano do João era esse tal sequestro simulado, fazer isso com uma menina de 3 anos seria extremamente fácil: ela não entenderia direito o que estava se passando e, quando fosse trazida de volta, não conseguiria explicar direito as coisas que ela tinha visto enquanto estava ‘sequestrada’.
Vamos somar isso ao fato do João ter saído com a menina naquela ocasião (lembrando que era uma noite fria e chuvosa, ou seja, uma ocasião bem estranha pra sair de casa com uma criança de 3 anos) e ter chegado com ela pouco depois que o sequestrador tinha ido embora.
Talvez o plano fosse ele chegar naquele momento e o sequestrador chegaria na mesma hora e fingiria que interceptaria ele ali na entrada da casa, levando a menina no final. Mas houve algum mal entendido no que foi combinado e o sequestrador entendeu que era pra entrar na casa antes do João chegar e que a criança mais nova que ele tinha que levar já estava lá. Era o Carlinhos.
O desespero do João ao saber que o Carlinhos tinha sido levado pode ter acontecido exatamente porque ele viu que o plano tinha saído errado e ia acabar desandando dali pra frente. Afinal, fazer o que estava combinado com uma criança de 10 anos não surtiria o mesmo efeito que fazer aquilo com uma criança de 3: diferente da Luciana, o Carlinhos entenderia o que estava se passando ali e, ao ser devolvido, contaria tudo com toda a clareza.
Essa teoria foi defendida com força pelo escritor João Antônio, que pesquisou o caso a fundo.
É interessante lembrar que o João procurou o Carlinhos compulsivamente ao longo dos anos seguintes (inclusive viajando pra outras regiões do Brasil e até pra Europa), fazendo questão de mostrar essas procuras na imprensa. Então, ficava parecendo que ele queria que todo mundo visse que ele não sabia onde o menino estava e, portanto, ele não tinha nada a ver com isso.
Quanto à Maria, ela não demonstrava se preocupar em quase nada com a maioria dos filhos: enquanto não escondia que tinha preferência pelo Carlinhos e pela Vera, ela era quase indiferente à existência dos outros 5.
De acordo com o Celso, a polícia passou a evitar pegar muito pesado com ela quando descobriram que ela era aparentada com um dos coronéis mais influentes da ditadura militar da época. Mas a suposição da polícia em relação a ela era a de um plano de abandono de lar.
Ela teria planejado alguma coisa mais ou menos assim: um amante dela entraria na casa se passando por um sequestrador, levaria o filho preferido dela pra algum lugar que eles teriam combinado previamente, ela aguardaria uns poucos dias até que se juntasse o dinheiro do resgate exigido, roubaria o dinheiro e fugiria pra se encontrar com o amante, passando a viver junto com ele e com o filho preferido em algum lugar bem distante dali.
Mas, nos dias seguintes, quando o amante dela viu a proporção gigante que a coisa tava tomando, ele entendeu que seria linchado se fosse descoberto. E assim, ele matou o menino, largou o cadáver em algum lugar de difícil acesso e sumiu no Mundo.
Isso explicaria a reação indiferente dos cachorros: eles já teriam visto aquele homem entrar na casa diversas vezes pra transar com a Maria quando ela tava lá sozinha.
É bom lembrar que o sequestrador cortou a luz da casa quando entrou lá. E a caixa de luz da casa não ficava num lugar tão explícito assim. Ou seja, o sequestrador já tinha passado por ali e visto onde o mecanismo ficava.
Essa teoria foi defendida com força pelo Celso.
Em 1976, quando completavam 19 anos de casados, o João e a Maria se desquitaram (não existia divórcio naquela época, mas sim desquite). E embora todas as pessoas que convivessem com o casal concordassem que eles já não iam muito um com a cara do outro já fazia quase uns 10 anos, a Maria (ninguém além dela) começou a dizer a partir dali que tinha um casamento feliz com o João até a noite em que ocorreu o sequestro.
Isso claramente não é verdade, já que, em 1971, ela já tinha tido uma separação não oficial com ele, deixando os filhos e o marido e indo morar na casa dos pais dela no Rio Grande do Norte. Mas depois de algum tempo, acabou voltando.
Todos concordavam que o João só não tinha se desquitado da Maria antes porque não ele teria dinheiro pra pagar pensão a 7 filhos e à ex-esposa. Mas, na época em que o Carlinhos foi levado, ambos já demonstravam ter casos extraconjugais.
Foi também a partir dali que a Maria começou a contar situações que aconteciam no dia a dia, dando a entender que o João tinha desvios de caráter. Enfim, ela passou a tentar retratar ele como alguém que não prestava, né?
Ela também levantou suspeitas contra praticamente todos os homens com quem o João tinha contato e contra os homens da família dele, dando a entender que um deles poderia ser o sequestrador.
Uma curiosidade é que esse caso atraiu uma quantidade razoável de esquizofrênicos, que, ao longo dos anos que se seguiram, se apresentavam à polícia dizendo que eram os sequestradores do Carlinhos ou que sabiam onde o Carlinhos estava sendo mantido em cativeiro.
Quando a polícia ia investigar o que a pessoa tinha dito, não encontrava nada daquilo. Mas descobria que a pessoa tinha um histórico de comportamento mentalmente insano.
Claro que também apareceram pessoas que confessaram que tinham sequestrado o Carlinhos, depois foram soltas porque ficou provado que não tinham feito isso (as “provas do crime” que incriminavam elas se mostravam ridículas) e mais tarde ainda se descobriu que essas pessoas só confessaram porque foram torturadas pra confessar, já que a polícia queria mostrar serviço.
Isso aconteceu, por exemplo, com a empregada da família, chamada Ranulfa da Silva.
Daí pra frente, começou a aparecer uma suposição atrás da outra sobre o que deve ter acontecido naquela noite e por quais motivos aquilo teria acontecido.
Talvez a parte mais bizarra de tudo isso é que, nos anos seguintes, ninguém abriu um inquérito oficialmente pra investigar o sequestro: os policiais só fizeram investigações aleatórias!
Só em 1977 as coisas mudaram por causa de uma descoberta feita pelo Bechara: o carro do João tinha sido visto sem nenhum motivo aparente circulando por Campos dos Goytacazes, o que parecia levantar a possibilidade de que o Carlinhos tinha sido levado pra lá naquele carro.
Assim, o inquérito por fim foi aberto oficialmente!
Poucos meses depois, a Vera decidiu fazer uma revelação: na noite do sequestro, ela reconheceu o sequestrador, afirmando que era um dos empregados do João, chamado Sílvio Pereira.
A justificativa que ela deu é que ela tinha sentido, vindo do corpo do sequestrador, o cheiro dos produtos com os quais o Sílvio trabalhava e que ela achou que os olhos do sequestrador eram iguais aos olhos do Sílvio.
Quando questionada sobre por qual motivo ela demorou 4 anos pra dizer isso, ela ficava calada ou desconversava.
O Sílvio chegou a ser preso, mas o advogado dele entrou com um recurso e ele foi solto por falta de provas pouco depois.
Essa acusação da Vera nem tem muito sentido. Em 1º lugar porque ela já tinha feito uma acusação meio furada no dia seguinte ao sequestro. E em 2º lugar porque todos que chegaram a ver o sequestrador com alguma clareza concordaram que ele era negro e usava cabelo black power, características físicas que o Sílvio não tinha.
O mais provável é que ela tenha dado essa declaração sob instruções da mãe.
O próprio João chegou a ser preso, quando, somado às acusações que a Maria fazia contra ele, um homem se apresentou numa delegacia afirmando que ele era o sequestrador e que tinha levado o Carlinhos sob ordens do pai dele.
O João chegou a ser severamente torturado na prisão. Mas, quando concluíram que o homem que fez a acusação tinha problemas mentais, soltaram ele.
Em 2003, o programa Linha Direta apresentou um episódio sobre essa história. Mas foi muito tendencioso, talvez de forma nem tão intencional, por um problema simples: só a Maria e a Vera quiseram falar sobre o assunto. Os demais membros da família do Carlinhos e outras pessoas diretamente envolvidas chegaram a ser procuradas pelo programa, mas se recusaram a falar sobre o assunto.
Assim, o programa só mostrou o ponto de vista da Maria, o que obviamente desviou a culpa só pro João.
Aliás, ela cometeu ali uma contradição...
Lembram que ela dizia que tinha levado uma vida feliz ao lado do marido até a noite do sequestro? Pois no programa ela disse que a casa onde ela morava com o marido era uma casa de muito sofrimento e que o que aconteceu por último foi o sequestro.
A Vera, que pediu pra só aparecer contra a luz no programa, só falou algumas frases incompletas e deu informações pela metade. Então, a participação dela não contribuiu em muita coisa além de dar a entender que ela sabe de algo que não quer falar.
E uma 3ª possibilidade é que o Carlinhos tenha sido levado e morto por vingança.
Vamos lembrar que o João era cheio de dívidas. E alguns dos cobradores dele eram pessoas ricas e/ou perigosas.
Como o Carlinhos era um dos filhos preferidos da família, matar ele feriria a família mais do que qualquer outro tipo de vingança.
Bom, isso explicaria o fato da família fazer questão de se manter em silêncio na época... Mas será que hoje, 50 anos depois, eles ainda têm tanto medo assim da pessoa que se vingou deles? Essa pessoa ainda tem até hoje tanto poder assim pra fazer tanto mal a eles se eles contarem explicitamente o que sabem?
Outra pergunta que algumas pessoas ainda se fazem: será que o Carlinhos ainda está vivo?
Bom, em qualquer crime que envolve um desaparecimento e a pessoa desaparecida nunca foi encontrada viva nem morta, sempre levantam a possibilidade de que a pessoa ainda se encontre viva. Afinal, o cadáver é uma espécie de comprovante de que a pessoa morreu. Se não existe cadáver (muito teoricamente), não existe morte.
Como seja, vamos lembrar que o Rio de Janeiro tem várias e várias e várias regiões arborizadas. Não é nem um pouco difícil enterrar um cadáver de pequeno porte na parte mais isolada de qualquer um desses aglomerados de árvores de modo que ele nunca seja encontrado. Ainda mais nos anos 70, quando lugares monitorados por câmeras eram raríssimos e não havia como seguir os passos de quem fizesse isso.
Há quem levante a suposição de que o Carlinhos escapou do sequestrador de alguma forma, mas não soube como voltar pra casa depois. Por isso ele nunca apareceu...
Eu acho isso no mínimo bastante fantasioso. Porque mesmo que ele tivesse escapado, ele teria sido visto por alguém e direcionado pra polícia. O que não faltou nos anos que se seguiram a 1973 foi gente procurando ele pelo Brasil todo. E qualquer menino com o tipo físico parecido com o dele que fosse visto sozinho num lugar público já provocava alarmes falsos na delegacia de polícia mais próxima.
Bom, falando aqui da minha opinião, acho que mataram o Carlinhos muito pouco tempo depois que ele foi levado. Possivelmente nos dias seguintes.
Eu digo isso pelos motivos já mencionados acima: houve uma super procura por ele já a partir dos dias seguintes e que foi se intensificando cada vez mais.
Se ele estivesse vivo, por mais que ele fosse mantido escondido ou levado pra longe pelo cara que raptou ele, ia acabar sendo visto por alguém.
E imaginem o pânico em que o bandido entrou, imaginando o destino que ele ia ter se fosse descoberto! Ou seja: é claro que ele se livrou de todas as provas do crime antes de ser descoberto. E isso incluía o próprio Carlinhos.
Quanto ao pai e/ou a mãe dele terem alguma coisa a ver com o crime... Bom, se eles não tão envolvidos diretamente com isso, minimamente eles sabem muito mais do que falam. Todas as reações que eles tiveram desde a noite do crime até hoje demonstram isso claramente.
De qualquer forma, no último meio século, não chegou nenhuma nova informação sobre o Carlinhos.








