Oi!!!
Fechando o mês, vou falar de um fenômeno que a gente viu claramente nos últimos dias: a aversão que a maioria dos habitantes de áreas rurais sentem contra o estilo de vida urbano.
Durante esse período mais explícito de lulismo versus bolsonarismo, deu pra ver que uma parte (aparentemente a maior parte) dos moradores de cidades pequenas rejeitam fortemente os hábitos e costumes das pessoas urbanas. E muitos apoiaram a direita claramente com a intenção de impedir esses hábitos e costumes de chegarem às cidades menores.
Aí, muita gente diz:
“Ué! Eu sempre pensei que no interior existisse uma admiração pelos centros urbanos.”
Numa 1ª observação, é isso mesmo que a gente vê. Mas quem mora numa região rural geralmente admira o que se passa nos centros urbanos enquanto isso se mantém aparecendo na televisão. Eles acham lindo pessoas de cabeça mais aberta disfrutando de mais liberdade pessoal aparecendo na novela. Mas quando uma pessoa de cabeça mais aberta e que disfruta de mais liberdade pessoal chega pessoalmente na cidade deles e vai conviver pessoalmente com eles, ela não é tão bem recebida assim.
Quando você anda pelas ruas de um centro urbano, olha pro lado e vê que outra pessoa tava olhando pra você, na quase totalidade das vezes essa pessoa desvia o olhar.
Em 2006, quando eu passei alguns dias no Piauí, andei por algumas cidades do interior daquele Estado. E uma delas foi Piracuruca, onde eu fui a um bar pra comprar uma garrafa de água mineral. E tinham 3 mulheres conversando no bar, uma das quais era a dona. E desde que eu entrei no bar, as 3 se calaram e ficaram me olhando da forma mais explicitamente fixa que vocês podem imaginar. E quando olhei também na direção delas, nenhuma fez nem o mínimo movimento pra desviar o olhar até que eu pegasse a água, pagasse e saísse do bar.
Sem dúvida nenhuma que eu fui visto ali como um objeto não identificado, né?
Enquanto numa região rural cada pessoa tenta tomar conta do que acontece na vida pessoal de todo mundo que vive na cidade, num centro urbano cada pessoa presta atenção quase exclusivamente nas pessoas mais próximas dela (um fenômeno bem comum de se ver num centro urbano é a pessoa morar num apartamento e nem saber direito quem são os outros vizinhos que moram no mesmo andar do prédio).
E não pensem que isso é algo exclusivo do Brasil: em todos os países, dos mais modernizados aos mais primitivos, você vê essa diferença. Nas regiões rurais do país, existe o conservadorismo radical, o apego extremista aos hábitos e costumes e a ideia de que é permitido matar e morrer pra defender as tradições. Nos centros urbanos do mesmo país, existe mais a ideia de que eu não devo me meter na vida pessoal do outro, a não ser que a vida pessoal dele esteja afetando a minha.
Exceções existem? Óbvio. Tanto de um lado quanto do outro você vai ver pessoas que não se enquadram no que eu acabei de descrever. Mas elas não são a maioria comparadas com a massa ao redor delas.
Não é difícil entender os 2motivos principais disso...
Num centro urbano, a presença de turistas é mais frequente (e em consequência, a convivência com formas diferentes de pensar e de se comportar é mais frequente) e a quantidade de pessoas é sempre muitíssimo maior (então, conhecer pessoalmente todos os habitantes de um centro urbano e saber o que se passa na vida pessoal de cada um deles é simplesmente impossível).
Agora, vamos focar isso nos nossos interesses aqui: em quê isso afeta as pessoas que não são heterossexuais?
A discriminação contra homossexuais e bissexuais é mais forte em ambientes rurais? Nem preciso responder, né?
Se um gay que mora numa região rural se mudar prum centro urbano, isso vai melhorar a vida dele?

A meu ver, sim. Mas vamos com calma...
Não pense que isso é uma fórmula mágica pra se livrar de todos os problemas. Morar num ambiente mais urbano (principalmente quando se trata de um ambiente mais urbano e também mais turístico) é garantia de que você vai encontrar menos preconceitos, mas não é garantia de que você não vai encontrar preconceito nenhum.
E se alguém viveu a vida inteira numa cidade pequena, ir morar num centro urbano é uma mudança de estilo de vida que nem sempre esse alguém vai aguentar numa boa.
No centro urbano existe muito mais barulho, as pessoas vivem sempre muito mais apressadas e na maioria dos ambientes em que você vai chegar você só vai encontrar pessoas desconhecidas.
Se você não se importa com nada disso, OK. Mas ainda assim temos que levar outra coisa em conta.
Se você sempre morou num determinado lugar, você já conhece todos os perigos desse lugar e já sabe quais são as manhas pra se desviar desses perigos; se você vai morar num lugar que você desconhece, é o oposto disso (você pode até andar pelo lado mais barra pesada da cidade sem saber os riscos que tá correndo ali).
E mais um toque: antes de se mudar pra qualquer outra região, você tem que ir pra lá já sabendo onde você vai morar, onde você vai trabalhar... Ir morar num lugar novo às cegas rarissimamente acaba bem.
Bom, sendo gay, se eu tivesse nascido num ambiente rural, eu faria todo o meu possível pra sair de lá. Mas antes eu levaria em conta essas últimas questões que eu levantei aqui.
2 comentários:
Romantizar vida no interior é o cúmulo do privilégio hétero, é igual ter saudade da escola. Cidade grande pode ter suas merdas, mas nada compensa viver numa cidade onde o único cara no aplicativo é um anônimo sem foto a 50 km de distância e todo mundo sabe e comenta da sua vida.
Apesar de qualquer gay ou bi encontrar alguns preconceitos num centro urbano, isso não é nem a 10ª parte do que ele vai encontrar numa Santana do Agreste da vida.
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