Poucos meses antes de
parar de atualizar o Ultra CECG&B, eu tinha terminado de fazer uma série de
12 posts sobre orixás e voduns.
Como muitos leigos
ainda acham que TODAS as divindades que tiveram seu culto trazido da África pro
Brasil são orixás, acho que o post de hoje talvez ajude a esclarecer alguns
equívocos.
Já expliquei isso em
outras ocasiões, mas vale a pena repetir: orixás são divindades ancestrais de
Oió (na atual Nigéria); voduns são divindades ancestrais do Daomé (no atual
Benin).
Não há um registro
exato de quando o culto dos orixás chegou à América do Sul pela 1ª vez. E a
mesma coisa em relação ao culto dos voduns. Até porque ambos ficaram muito
escondidos durante alguns séculos, pois eram proibidos pelos portugueses.
Mas uma prova de que eram
2 coisas bem separadas a princípio é o histórico da Rainha consorte Agotime, de
Daomé.
Ela é considerada a
grande matriarca do culto dos voduns no Brasil. E a fundação da Casa das Minas,
no Maranhão, em meados do século XIX, é atribuída a ela.
Os dados biográficos
dessa rainha consorte, esposa do Rei Agongolo, de Daomé, e vendida como escrava
pelo enteado que assumiu o poder depois da morte do pai, mostram que ela só
teve o 1º contato com o culto dos orixás no Brasil, embora, enquanto vivesse no
Daomé, ela fosse uma das maiores conhecedoras do culto dos voduns.
A música Agotime: A Saga de Uma Rainha, usada
como tema de carnaval da Beija-Flor em 2001, conta algumas partes da vida da
Agotime.
Bom, na África, só
parece ter havido uma mistura entre voduns e orixás em Oió, onde o povo adotou
o culto de alguns voduns, que passaram a ser considerados orixás. Mas tudo
mostra que o mesmo não parece ter acontecido no Daomé.
No Brasil, embora o
culto dos voduns e o culto dos orixás tenha se misturado até um certo ponto,
ele não deixa de ser diferenciado por tradições diferentes do Candomblé. Vejam
que a Tradição Queto é fundamentada no culto dos orixás e a Tradição Jeje é
fundamentada no culto dos voduns.
Talvez pelo fato da
Tradição Queto ser mais praticada do que a Tradição Jeje, a palavra ‘orixá’
acabou se tornando mais conhecida do que a palavra ‘vodun’. E talvez seja isso
que leva as pessoas a pensarem que TODOS os deuses e deusas do Candomblé são
orixás, como eu disse lá em cima.
Bom, vou linkar aqui os
posts que eu fiz sobre alguns voduns. E talvez isso esclareça mais algumas diferenças
entre eles e os orixás:
NANÃ
EUÁ
IROCO
OBALUAIÊ
OSSÃE
OXUMARÉ
E encerro lembrando que
todo mundo sabe que eu sou candomblecista, mas esse post não foi nenhuma
tentativa de conversão. Ele se presta apenas a tentar tirar algumas dúvidas.
Mas longe de mim descer ao nível dos pentecostais brasileiros de tentar forçar
os outros a irem pra religião deles.
Nem os voduns nem os
orixás querem ninguém perto deles contra a própria vontade. Eles não são como o
deus que os pentecostais nos apresentam, que lança as pessoas ao fogo do
Inferno pelo resto da eternidade só porque essas pessoas não frequentavam a
igreja que ele quer, só porque essas pessoas não usavam o cabelo cortado no
tamanho que ele quer, só porque essas pessoas não usavam o tipo de roupa que
ele quer...
E não importa a vontade
da pessoa, não importa se a pessoa quer ou não quer ir pra perto desse deus: de
acordo com os pentecostais, a pessoa simplesmente TEM que aceitar esse deus e
servir a esse deus, não importa se ela está fazendo isso forçada ou por vontade
própria.
Bom, posso dizer a
vocês que esse não é o deus que eu quero pra mim. Mas, se você é pentecostal e
gosta de servir a um deus assim, faça bom proveito dele.
Os deuses e deusas que
eu sirvo não condenam uma pessoa a um castigo eterno só porque a pessoa fez
algum detalhe de que eles não gostaram. Mas é aquela questão: isso funciona pra
mim e dá certo pra mim; não posso afirmar que vai funcionar pro outro e ser bom
pro outro. Até porque, se o outro gosta de um deus mais opressor, mais
repressor e mais julgador (porém disfarçado de misericordioso), então o outro
deve procurar mesmo por denominações cristãs. Pois é assim que os pentecostais
descrevem o deus cristão.
Resumindo: eu sei o que
é bom pra mim; o que é bom pro outro é o outro que tem que saber.
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