terça-feira, 12 de novembro de 2013

TENTANDO EXPLICAR A DIFERENÇA ENTRE VODUN E ORIXÁ

Poucos meses antes de parar de atualizar o Ultra CECG&B, eu tinha terminado de fazer uma série de 12 posts sobre orixás e voduns.
Como muitos leigos ainda acham que TODAS as divindades que tiveram seu culto trazido da África pro Brasil são orixás, acho que o post de hoje talvez ajude a esclarecer alguns equívocos.
Já expliquei isso em outras ocasiões, mas vale a pena repetir: orixás são divindades ancestrais de Oió (na atual Nigéria); voduns são divindades ancestrais do Daomé (no atual Benin).
Não há um registro exato de quando o culto dos orixás chegou à América do Sul pela 1ª vez. E a mesma coisa em relação ao culto dos voduns. Até porque ambos ficaram muito escondidos durante alguns séculos, pois eram proibidos pelos portugueses.
Mas uma prova de que eram 2 coisas bem separadas a princípio é o histórico da Rainha consorte Agotime, de Daomé.
Ela é considerada a grande matriarca do culto dos voduns no Brasil. E a fundação da Casa das Minas, no Maranhão, em meados do século XIX, é atribuída a ela.
Os dados biográficos dessa rainha consorte, esposa do Rei Agongolo, de Daomé, e vendida como escrava pelo enteado que assumiu o poder depois da morte do pai, mostram que ela só teve o 1º contato com o culto dos orixás no Brasil, embora, enquanto vivesse no Daomé, ela fosse uma das maiores conhecedoras do culto dos voduns.
A música Agotime: A Saga de Uma Rainha, usada como tema de carnaval da Beija-Flor em 2001, conta algumas partes da vida da Agotime.
Bom, na África, só parece ter havido uma mistura entre voduns e orixás em Oió, onde o povo adotou o culto de alguns voduns, que passaram a ser considerados orixás. Mas tudo mostra que o mesmo não parece ter acontecido no Daomé.
No Brasil, embora o culto dos voduns e o culto dos orixás tenha se misturado até um certo ponto, ele não deixa de ser diferenciado por tradições diferentes do Candomblé. Vejam que a Tradição Queto é fundamentada no culto dos orixás e a Tradição Jeje é fundamentada no culto dos voduns.
Talvez pelo fato da Tradição Queto ser mais praticada do que a Tradição Jeje, a palavra ‘orixá’ acabou se tornando mais conhecida do que a palavra ‘vodun’. E talvez seja isso que leva as pessoas a pensarem que TODOS os deuses e deusas do Candomblé são orixás, como eu disse lá em cima.
Bom, vou linkar aqui os posts que eu fiz sobre alguns voduns. E talvez isso esclareça mais algumas diferenças entre eles e os orixás:

NANÃ


EUÁ


IROCO


OBALUAIÊ


OSSÃE


OXUMARÉ


E encerro lembrando que todo mundo sabe que eu sou candomblecista, mas esse post não foi nenhuma tentativa de conversão. Ele se presta apenas a tentar tirar algumas dúvidas. Mas longe de mim descer ao nível dos pentecostais brasileiros de tentar forçar os outros a irem pra religião deles.
Nem os voduns nem os orixás querem ninguém perto deles contra a própria vontade. Eles não são como o deus que os pentecostais nos apresentam, que lança as pessoas ao fogo do Inferno pelo resto da eternidade só porque essas pessoas não frequentavam a igreja que ele quer, só porque essas pessoas não usavam o cabelo cortado no tamanho que ele quer, só porque essas pessoas não usavam o tipo de roupa que ele quer...
E não importa a vontade da pessoa, não importa se a pessoa quer ou não quer ir pra perto desse deus: de acordo com os pentecostais, a pessoa simplesmente TEM que aceitar esse deus e servir a esse deus, não importa se ela está fazendo isso forçada ou por vontade própria.
Bom, posso dizer a vocês que esse não é o deus que eu quero pra mim. Mas, se você é pentecostal e gosta de servir a um deus assim, faça bom proveito dele.
Os deuses e deusas que eu sirvo não condenam uma pessoa a um castigo eterno só porque a pessoa fez algum detalhe de que eles não gostaram. Mas é aquela questão: isso funciona pra mim e dá certo pra mim; não posso afirmar que vai funcionar pro outro e ser bom pro outro. Até porque, se o outro gosta de um deus mais opressor, mais repressor e mais julgador (porém disfarçado de misericordioso), então o outro deve procurar mesmo por denominações cristãs. Pois é assim que os pentecostais descrevem o deus cristão.

Resumindo: eu sei o que é bom pra mim; o que é bom pro outro é o outro que tem que saber.

Nenhum comentário: